terça-feira, outubro 25

Madrugada em sonho

Três horas e vinte e quatro minutos, gritava o enorme relógio aos fundos. Mesmo antes de entrar, eu a vi.
Larguei a noite escura lá fora.
Lá dentro, além do relógio e além de um sujeito atrás do velho e sujo balcão, tinham três pessoas.
O de trás do balcão, sentado numa banqueta, ou em qualquer coisa parecida, tentava cochilar. Olhos cerrados, as costas apoiadas no encosto da cadeira, braços cruzados a altura do peito, cabeça caída para frente, alheio ao movimento do bar.
No centro do bar, dois amigos, à mesa, sentados um de frente para o outro, poucas e mansas palavras, deixavam a cerveja esquentar no copo enquanto criavam coragem para comer um qualquer coisa que parecia recém saído do inferno.
Por fim, ao fundo do bar, no canto, aquilo que mais me chamara atenção, que me motivara a entrar. Sentada só, despenteada como que recém acordada, maquiagem borrada como um palhaço chorão, uma mulher, nem bonita, nem feia, com negras raízes do cabelo entregando o falso alouramento, olhava fixamente o cigarro repousado no cinzeiro queimar lentamente, como se não fosse com ela. Uma das mãos segurava uma xícara e a outra apoiava a cabeça, que parecia pesar como uma bola de boliche. Apenas quando me aproximei percebi que usava saia nem tão comprida e, sob o grosso casaco marrom, uma blusinha branca sem sutiã.
Sentei-me a sua frente, sem lhe pedir licença. Ela não levantou os olhos.
Calmamente, peguei o cigarro do cinzeiro e o levei à minha boca. Ela acompanhou o movimento com os olhos. Dei um trago forte e lento, saboreando o tabaco, e o devolvi ao cinzeiro, devolvendo o olhar dela ao cinzeiro também. Retirei a xícara de sua mão sem que ela oferecesse resistência, senão um desvio de olhar, do cigarro para a xícara. O café estava frio.
- Joe! Traga um pouco de café quente! - gritei para o sonolento rapaz atrás do balcão, no momento em que ela devolvia o olhar para o cigarro.
O zumbi-sonolento, cujo nome eu nem qual era, trocou a xícara com café frio pela com café bem quente. Ela olhou a xícara, pegou e deu um gole que até eu, de fora, senti aquecer seu corpo.
Tirei meu maço de cigarros do bolso, conferi. Quatro cigarros. Joguei-o sobre a mesa. Ela viu, mas não olhou.
Levantei e sai, voltando para a escuridão anonimizadora, sem trocar um olhar com ela, para nunca mais vê-la.

6 comentários:

  1. Anda inspirado, hein Léo? Todo dia tem texto novo por aqui! :)

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  2. Fala border... faz um tempo eu não vinha para aqui... culpo a nova vida que, como um trem bala sem freios, não dá tréguas e quase que me atropela numa de suas muitas curvas... muitas preocupações, aflições, insatisfações... é muitos "ções" para os quase inexitentes "eres": os prazeres... prazeres como esse, o de ler o que vc tem para escrever... e como é bom ler o que vc nos escreve. bem, não vou tecer outros comentários, visto que vc já é sabedor da adimiração que tenho por esta leitura...
    Enfim, agradeço por ter se colocada à disposição na alteração do meu blog, mas por enquanto fica o dito pelo não dito.... fica tudo como está....
    Já vou, que isso aqui não é email, pra ficar colocando palavras assim, a esmo... um grande abraço e na minha irmã também

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  3. hummmm... acho q me expressei mal: os eres são muitos... só os tenho aproveitado pouco (ou menos do que deveria)... acho q é isso
    e se não for, que fique assim como está...hehehe

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  4. Dani, meu trabalho tem exigido muito do meu lado direito. Estou apenas tentando equilibrar as coisas. Espero que esteja gostando...
    :o)

    Fábio, valeu por aparecer. Vc sabe que admiração é recíproca e que o artista aqui e vc.

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  5. Kct! Adorei esse!
    O excesso (excesso?!) de detalhes me permitiu viajar um pouquinho sem sair de casa... :)

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  6. Ops... A anônima é a anta da Vera :)

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