sexta-feira, novembro 11

Ela

Uma homenagem a várias amigas minhas.


Ela

    Um grito agudo e estridente a acordou. Assustada, mal abriu os olhos e já estava de pé, num pulo, sem pensar, e foi correndo ao quarto da filha - coisas que só uma mãe entende. Sua pequena dormia tranquilamente. Ah, ótimo, que alívio, está tudo bem. Mas, quem gritou? Sua filha sonhara? Ela própria sonhara?
    Voltou para o quarto, onde seu marido dormia, tranquilo, seu sono pesado. Olhou para o relógio, que mal passara da primeira hora do dia. Incrível como seu marido nunca acordava, por nada, para nada. Nem quando a sua filha era ainda um bebê e dormia na cama com eles, o infeliz não acordava. Sempre foi assim. Sempre era ela quem tinha que acordar de madrugada para preparar mamadeira, para trocar fralda ou para socorrer a filha qualquer que fosse o problema. Sempre ela que preparava jantar, almoço e lavava a louça. Fazia tudo. Só ela. Sempre. Ele nunca fazia nada. Nunca ajudava em nada. Inútil! Por que ela ainda estava casada com ele? Nem ela sabia ao certo.
    Perdeu sono.
    Decidiu ir para a sala, fumar um cigarro e tentar relaxar - fumar faz bem. No corredor, escuro, chutou um brinquedo e fez um barulho tão alto que o vizinho de baixo poderia ter acordado, mas, por sorte, a filha puxara ao pai e também não acordava fácil. Fechou os olhos, de raiva. Respirou fundo. Realmente, precisa de um cigarro. Pegou o maço e foi para o lado da janela, onde se debruçou. Adorava fumar ali, vendo a noite daquela rua agitada onde morava. Adorava morar ali, perto de tantos bares legais. Talvez por isso ainda estivesse casada, para não ter que mudar dali. Acendeu o cigarro. Era o último do maço, merda. Ía ter que descer para comprar mais pois, numa hora dessas, vai que um cigarro seja pouco? Terminou de fumar vendo os carros passarem, as pessoas que entravam e saiam dos barres, riam, conversavam, fumavam, bebiam e se divertiam. Ah, como é bom ser jovem, solteiro e sem preocupação.
    Apagou o cigarro e voltou para o quarto. Colocou um short jeans qualquer, um chinelo de dedo e, por cima da regata branca que usava, uma camiseta, também branca, com gola em “V”, do Velvet Underground. Passou no banheiro, arrumou o cabelo de qualquer jeito, preso mesmo, mais fácil, passou lápis, batom e perfume porque, né?, vai descer na rua que está agitada, cheia de gente bonita, jovem, arrumada e ela não podia fazer feio.
    Chegando lá embaixo, o porteiro dormia sentado, debruçado sobre a mesa, como sempre. Só ela, naquele prédio, não tinha o sono pesado? Passou pela porta do prédio. O bar onde costumava comprar seus cigarros, um bar velho, simples, para quem gosta de cerveja e não da badalação, era vizinho do prédio, à direita e fechava tarde. Por isso, rumou à esquerda. Seria bom passear um pouco.
    Passou por três quarteirões e, no caminho, por duas vezes, alguém mexeu com ela. Dois homens, cada um e um bar diferente. Bonitos, até. Quer dizer, ah, não podia exigir muito. E mexeram! Não estava tão mal, afinal. Nem tão velha. Mas ela os ignorou. Era casada e nunca fora dessas mulheres que traem. Ao final do terceiro quarteirão, atravessou a rua e voltou pela calçada oposta. Só queria ver um pouco do movimento. Nada demais.
    Entrou no velho bar vizinho ao prédio, pediu um cigarro e uma latinha de cerveja, e se sentou ao balcão. Logo no primeiro gole, tão bom, tão gelado, tão reconfortante, ela sentiu-se arrepiar. Sorriu. Percebeu que precisava de um cigarro.
    Saiu à rua com a lata de cerveja na mão. Acendeu um cigarro e decidiu dar mais uma volta.
    No final do quarteirão ficava o bar onde o primeiro dos fulanos tinha mexido com ela. De relance, parecera bonito. Não custava nada passar em frente ao bar mais uma vez, para vê-lo melhor. Sim, ele ainda estava lá, sentado, dentro do bar com alguns amigos. Seus olhares se cruzaram. Ela ficou vermelha, olhou de lado e resolveu voltar para casa. Quase em frente ao prédio sentiu alguém a segurar pela cintura.
    “Não precisa fugir. Não mordo. Não sempre.”
    Surpresa, ela sorriu.
    “Como você se chama?”, ele perguntou.
    Ela se virou para ele e devolveu a pergunta.
    “Qual é o seu nome?”
    “Carlos.”
     “Carlos, se você não morde, o que você quer exatamente?”
    Ela foi enfática e direta, o que o desconcertou.
    “Olha, eu sou casada, tenho uma filha de quatro anos, moro aqui do lado, e da janela do meu quarto, onde meu marido está dormindo, dá para esse bar. Não sou dessas. Não traio meu marido. Nunca traí, nunca trairei”, disse um pouco alterada.
    “Você é linda.”
    “Não. Eu estava dormindo até quinze minutos atrás. Estou toda amassada.”
    Ele a puxou pela cintura e colou o corpo dela no dele. Ela tomou um susto, mas antes que ela falasse alguma coisa, ele a beijou.
    “Você é louco? Tá pensando o quê? Eu sou casada.”
    Ele a beijou de novo. Dessa vez ela se desvencilhou dele.
    “Não. Para. Sério. Olha, eu moro ali”, apontou a janela de sua sala. “Assim não. Não posso. Meu marido pode acordar e aparecer ali e me ver...”
    Ele a beijou mais uma vez. Dessa vez, deu-se por vencida. Mesmo porque, além do beijo de Carlos ser delicioso, o inútil do seu marido não acordaria nem se duas pessoas estivessem transando na mesma cama que ele.
    “Carlos, espera. Aqui, não. Alguém pode ver.”
    “Vamos para o bar.”
    “Eu moro aqui. Todo mundo me conhece, conhece meu marido. Não.”
    “Então... Onde?”
    “Carlos, você é um homem destemido?”
    “Você não faz idéia.”
    “Então vem comigo.”
    Ela o pegou pela mão e o puxou. Pararam em frente ao prédio. A adrenalina a lavou. Tentou enxergar o porteiro através do vidro, mas a película escura deixava muito escuro dentro do prédio.
    “Espere aqui um pouco.”
    Com cuidado, abriu a porta de vidro. Um ronco reverberou pelo saguão: o porteiro ainda dormia. Com um gesto, chamou Carlos para entrar.
    “Silêncio, agora.”
    Com todo cuidado necessário, delicadamente, chegaram até o elevador. Carlos não estava entendendo direito o que acontecia, mas entrou no jogo.
    “Onde a gente está indo?”
    Ela sorriu.
    “Calma. Você vai gostar, tenho certeza.”
    Chegaram ao andar dela. A luz do corredor se acendeu enquanto a porta do elevador se fechava atrás deles. Ela deu um rápido beijo nos lábios dele, tirou a chave do bolso e encaixou na porta.
    “Com todo cuidado agora, ok?”
    Ele assentiu em silêncio.
    Ela entrou em casa seguida por Carlos. Calmamente, fechou a porta. Carlos estava parado, um pouco assustado, conforme seus olhos demonstravam. Ela o levou até a cozinha e encostou a porta que a separa da sala. Sentia o coração na boca. O medo deixa tudo mais gostoso.
    “Eu moro aqui. Meu marido tem o sono pesado, não acorda nunca, para nada.”
    Ele sorriu e a agarrou.
    “Agora sou toda sua. Você tem camisinha?”
    Sorriram.

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