sexta-feira, novembro 4

Mais uma Sexta-Feira


O relógio bate vinte horas e ela ainda está no escritório. Sozinha. Afundada no trabalho, relatórios para examinar e prazos para cumprir, não viu as horas passarem. É sexta-feira e todos saíram mais cedo nessa noite, menos ela. Todo mundo tinham alguma coisa pra fazer. Menos ela. Respira fundo. É hora de ir embora.
Sem arrumar nada da papelada sobre sua mesa, fecha o escritório e liga o alarme. No carro, coloca um CD dos Ramones e sai dirigindo pela cidade chuvosa, sem rumo e sem direção, até parar em um supermercado qualquer, onde compra seis garrafinhas de alguma Ice, sem prestar atenção na marca.
De volta ao carro, a chuva aperta. Sem sair do estacionamento, acende um cigarro e abre uma das garrafinhas. Não abre os vidros para não molhar o carro; para não se molhar. As cinzas vão caindo sobre sua minissaia preta, ou no banco com alguns buracos feitos por uma ou outra brasa de cigarro, ou no chão do carro. Espera terminar a garrafa para ligar o carro e voltar à rua. Durante o caminho fuma um cigarro atrás do outro enquanto bebe sua Ice. Não para de dirigir. Ela gosta. Relaxa.
A noite cai e o trânsito começa a ficar mais e mais intenso quando ela abre a última garrafinha da bebida, que já está sem gelo. A falta de companhia começa a latejar. Pensa em ligar para os amigos e amigas a procura de alguém que ela pudesse ligar para lhe fazer alguma companhia, mas lhe falta coragem.
Para o carro em frente a um boteco qualquer, sujo e escuro. Escroto. Dentro, só tem bêbados velhos. Ela fecha os olhos e respira fundo. Procura coragem que as seis garrafas de bebida ainda não lhe deram. Ajeita a maquiagem, tira o sutiã e abre os dois primeiros botões da camisa branca. Abaixa a cabeça e reza. Fica parada por quase vinte minutos. Liga o carro e dá a volta no quarteirão. A chuva aperta. Está frio lá fora, e ela sabe. Estaciona o carro na rua de trás do bar. Do espelho retrovisor, retira o mini terço e o aperta contra a mão. Reza mais uma vez. Devolve o terço ao retrovisor e solta um grito libertador. Desce do carro e sai correndo, deixando a chuva lhe lavar. A camiseta ganha certa transparência. Ela sente muito frio.
Entra no bar. O cabelo pinga. Todos param de conversar e olham para ela. Ela travessa o bar enquanto é devorada pelos olhos de todos os bêbados dali. Pede uma dose de pinga e espera. Não tardará e algum velho imundo, fedido e porco chegará até ela falando uma gracinha qualquer e ela o levará para o banheiro nojento.
Alguma coisa tem que dar certo para ela.

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