domingo, novembro 6

Por pouco


A padaria ficava há algumas quadras de sua casa. Era uma caminhada que ele adorava fazer, principalmente aos finais de semana, pela manhã. As ruas do bairro, arborizadas, tinham vida, paixão, e era bucólica, ao mesmo tempo.
Como de costume, naquela sábado, acordou cedo – ou mal dormira – e passou quase uma hora conversando não só com o porteiro do prédio, mas com todos os vizinhos que passassem por ali. Já na rua, cumprimentava a todos, sorrindo, e conversou amigavelmente com os funcionários da padaria, onde tomou seu café preto com um pão na chapa bem torrado e comprou um maço de cigarros.
No caminho de volta, sentou no banco da praça que fica atrás do prédio em que mora há tantos anos que não lembra mais. Ficou ali o resto da manhã, olhando as crianças brincarem, correrem e pularem. Ser criança, com o brilho único no olhar e sorriso no corpo inteiro, é a liberdade de ser como e quando quiser, sem saber que lhe julgam e não ter saudades.
Ele se mudara para aquele bairro, para aquele prédio, aos trinta e quatro anos de idade, logo que se separou de Vânia. Fazia, então, quarenta e sete anos que morava ali, que morava sozinho, que vivia sozinho. Não fora solitário, porém. Primeiro eram seus três filhos que vinham um final de semana sim, outro não. E tinham os feriados, as férias, as visitas de amigos e amigas, as putas que ele sempre chamava e os casos que teve com as esposas de maridos burros e cegos. Depois vieram os netos. Eram sete. Estes vinham sempre, todos os finais de semana, quando não um, outro. De um modo geral, a vida sempre foi agitada. De dia, pelo menos. À noite, cabeça no travesseiro, o vazio da cama berrava estridente, cuspia em sua cara e pisava em seu peito. Às vezes, mãos pesadas e traiçoeiras, invisíveis, lhe apertavam forte o pescoço, lhe sufocavam. Mas ele sobrevivia.
Depois que se separou de Vânia, mulher que o manipulou por nove anos, de quem foi vitima de sequestros e abusos emocionais, perdeu a capacidade de amar apaixonadamente. Talvez nem tanto fosse a solidão noturna que lhe queimava, mas a falta de viver aquele fervor, aquela ânsia. Por isso sentia o coração ofegante, quase morto, por tanto tempo, o que lhe matou a criança que tinha dentro de si.
Assim, adquiriu o hábito e, todo final de semana, parava naquela praça. Era querido pelos pais e pelas mães. Era o avô de todas as crianças. Dentro de sua limitação física – desde que quebrou o fêmur, num acidente de moto, nunca mais foi o mesmo – provocava e brincava com as crianças. Vez ou outra, um pai ou uma mãe, ou uma babá, sentava-se ao seu lado e ficavam conversando sobre amenidades, fumando ou apenas lendo os jornais e comentando suas notícias.
Naquele sábado, o Sol ardido, mais uma vez não viu as horas passarem. Foi uma manhã boa, animada, como costumavam ser sempre os seus dias. Mas chegava a hora do almoço. Pais precisavam preparar o almoço e crianças precisavam almoçar. A praça esvaziava e, com ela, seu coração. E quanto mais vazio ficava, mais difícil era respirar. Luana, morena ancuda, olhos verdes, peituda e mãe de três, perguntou se queria que o acompanhasse até em casa. Um doce de mulher. Não, estava tudo bem. Sorriram. Despediram-se. Ele ficou ali, sentado, olhando o doce rebolar de Luana até ela desaparecer de vista. Deteve mais alguns minutos, enquanto  fumava mais um cigarro. Procurava forças.
Quando se levantou, sentiu uma leve tontura seguida de um agudo, surdo e intenso fisgar no peito. Caiu.
Ao retomar a consciência e abrir os olhos, a vista doeu, ardeu. Tudo claro, claro demais: teto branco demais e iluminado demais.
“Pai?”
Seu caçula lhe chamava.
Tivera um ataque cardíaco. Sorte que, no exato momento da queda, algum vizinho chegava na praça, caminhava em direção dele, para lhe cumprimentar.
Ficara três semanas desacordado. Todos, filhos, netos, sobrinhos, primos e vizinhos, aflitos e desesperados de preocupação. Mas agora, tudo bem. Ele acordou.
Um médico entrou e explicou os pormenores. Sobrevivera, foi por pouco, mas não foi dessa vez que morreu.
Uma lágrima se soltou de seus olhos. Ele respirou fundo.
Resignou-se.

2 comentários:

  1. Eu tava apostando na Luana! rs
    Não foi dessa vez!

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  2. Hahahaha. Não sabia que tinha um jogo...

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